Tua Mirandela. 120 Anos de História


Vou contar-vos uma história. Esta história não tem castelos ou cavaleiros andantes, magias de espantar, lirismos ou ridículo. A história que pacientemente ouvirão destas páginas, é uma história de valentia, sonhos inolvidáveis, e suor arrancado das veras da própria alma.

Nasci por estas terras, onde às águas do Tuela e do Rabaçal, um castelhano e outro galego, já se dão o nome de Tua. Meu nascimento foi num ano da década de 1850, quando homens de valor pegaram nas rédeas de Portugal e o levantaram a um novo esplendor, forjado a aço e movido à força quente do vapor. O grande ministro do Reino, Fontes Pereira de Melo, adorava o cavalo de ferro, e ditou que o seu galope substituísse o ancestral das bestas verdadeiras. E chegou o dia em que se destinou que o cavalo de ferro viesse também galopar nas terras do distrito de Bragança. Chamavam-lhe comboio, e muitos se insurgiram contra ele, uns porque lhe apetecia, outros porque era uma máquina assassina e perigosa, outros porque era uma afronta contra os céus. Aceitar a vinda do comboio era dar as boas vindas ao próprio diabo; coisas de que hoje até o próprio clero se ri com benevolência. O que é certo é que o comboio e a sua estrada de ferro vinham aí, lançados a partir do Porto, rumo ao vale do Douro, para entrar pela Espanha adentro por Barca d’Alva. Com a perspectiva da sua passagem pela foz do Tua, a ideia de fazer um ramal que daí subisse para Mirandela e Bragança rápido ganhou forma e apoiantes.

Foi em 1878 que uns engenheiros vieram por cá, olhar com respeito para a garganta do Tua, que se despenha para o rio como se fosse o próprio caminho para se cair nas forjas do inferno. Foram feitos dois projectos, mas foi o do engenheiro António Pinheiro, pela margem esquerda do rio, que viria a ser aceite. Depois disso, a Câmara de Mirandela começaria o processo burocrático, apresentando à Câmara dos Pares do Reino em 1882 um projecto de lei para a cobertura de juro de 5% para os construtores da via. Como se não houvesse fundamento sólido para a sua aprovação, fizeram-se pedidos à Associação Comercial do Porto e a El-Rei D. Luís I em pessoa para pressionar quem de direito à aprovação da construção da via-férrea. Foi isso em 1883, e foi nesse ano que a Linha do Vale do Tua conheceu um dos homens que ficarão para sempre ligados a si: Clemente Meneres, comerciante, que se viria a fixar no Romeu, onde criou uma das quintas mais ricas de Trás-os-Montes, e para onde iria também puxar o comboio, quando alargaram a linha para Bragança. Mas o apoio estava dado, e o projecto aprovado, primeiro adjudicado ao Conde da Foz, e deste trespassado à Companhia Nacional dos Caminhos-de-Ferro. O contrato definitivo só viria a ser assinado em 30 de Junho de 1884; e é aqui que eu próprio entro na História da Linha do Tua. A lavoura era dura, impiedosa, e o rendimento que daí vinha escasso e incerto. A oportunidade de trabalhar na construção da linha surgiu, e aproveitei-a: depois de algumas abordagens, fazia parte da força de trabalho. Mas, se na altura a ideia parecia boa, dias houve em que com o coração na boca já só pedia aos santos pela vida. O trabalho aventureiro de construir a estrada de ferro atraía muitas vezes gentes de pouca confiança, e a Linha do Tua não foi excepção. Homens de cara dura e olhar tisnado juntaram-se, e dia 16 de Outubro as obras arrancaram. Construir um caminho-de-ferro em terra plana e branda é uma coisa, e enquanto os trabalhos se passaram entre Mirandela e o Cachão, com as aldeias à vista da gente e o trabalho a prosseguir a bom ritmo, tudo seguia com normalidade. Iam os engenheiros à frente, olhavam, olhavam, faziam cálculos, tiravam notas; e a tudo isso a gente seguia com a indiferença de um lavrador ao que se passa em seu redor. Seja a levar o arado a direito pelo sulco, ou a carregar as travessas da via, o que de mais se passe no mundo não existe. Só era necessário prestar atenção às ordens de direcção da via, e a isso todos deviam olhar religiosamente. Ainda assim, o trabalho era duro. No Verão o sol ardia, e os carris num capricho maldoso reflectiam a luz cegando-nos constantemente. Regar-se-iam quintas com o suor aflito dos que ali tinham de arrancar ao ferro e à terra o pão para por na mesa. No Inverno, a chuva engrossava o rio, fazendo dele um demónio furioso a rugir constantemente ao nosso lado, e as geadas pareciam levar-nos da alma toda a réstia de alegria. Mas o trabalho prosseguia... Mas nem sempre a ordem imperava, ditada pelo rigor da natureza e pela ordem natural das coisas, onde desde os tempos bíblicos se dizia que se não trabalhares, também não necessitas comer. E cedo os desacatos estalaram, em olhares raivosos, vívidos, de homens que tentavam roubar à calada, e não se submetiam a ordens imperiosas para que o comboio alguma vez pudesse ultrapassar aquelas penedias. O engenheiro da obra rápido deu de si, que aqui d’El-Rei que não se entendia com gente assim sem brios, que mais pareciam bichos do monte. Foi aí, nessa altura, que foi chamado um homem que ainda hoje respeito como a um mestre: Dinis da Mota. O açoriano, como muitos o tratavam em conversas paralelas, tinha uma vontade de ferro, e até o mais feroz lobo de barbas negras de entre os trabalhadores, ou fazia as malas e saía sem ai nem ui, ou se submetia às ordens dadas. Bendito homem, que deu bom rumo à empresa!
Mas se me perguntam, de toda a linha, as coisas de que mais me recordo, uma delas foram as tormentosas semanas em que nos internamos como bandeirantes nos penedos do Baixo Tua. Em apenas 10Km de via, reclamamos àqueles desfiladeiros três pontes e cinco túneis. Eu fui um dos que acendeu vezes sem conta o temerário rastilho da dinamite. Nessa altura Dinis da Mota falava, e nós executávamos, como se fosse um herói de guerra a quem é impensável questionar a ordem dada. Vezes houve em que me prendiam com uma corda que passava numas roldanas, baixavam-me à altura da plataforma da via, acendia ao rastilho, e gritava um “Puxem!” como um náufrago grita pela vida no alto mar. Lá em cima puxavam, e antes da rocha ir pelos ares com um fragor de nos siderar de medo, amplificado pelos ecos rancorosos dos outros penedos, ia eu pelo ar, às vezes de olhos fechados, confundindo a bocarra medonha do desfiladeiro com os portões do Purgatório. Já as pontes, se eram pequenas mereciam cuidado, se eram grandes, mereciam um respeito sem limites. Um passo em falso, e toda a gente rezaria um padre-nosso à hora do caldo pelo infeliz que se perdesse lá em baixo. Esses dias foram os mais duros de todos. Sem um único casario à vista por semanas, além dos do Amieiro, nem o canto dos pássaros se atrevia a interpor-se ao silêncio ancestral dos fraguedos, e ao ribombar constante do Tua. Descansava-se quando se podia, à sombra de um amieiro ou duma oliveira enfezada, com o cheiro macio a madeira das travessas, uns grelhados dalguma truta arrancada ao rio, contavam-se histórias, ria-se. Gente boa é simples, contenta-se com o pouco que ainda vai havendo e que às vezes custa tão pouco. Três anos levaram, a tirar terras, alisar terras, enterrar travessas, pregar carris, montar pontes, desbravar túneis, construir estações. Nos povoados, éramos recebidos como soldados em partida para uma campanha. As gentes vinham, e eram os homens a oferecer vinho, as mulheres a dar generosamente um naco de centeio negro, e a garotada a olhar com olhitos de grande espanto para todo aquele aparato. Teriam eles também os seus heróis, ali a construir a via-férrea, ou dali a semanas, com alguém da terra a comandar os passos cadenciados das 24 horas bem medidas que levam a gerir uma estação.

Chegou o dia 27 de Setembro de 1887. A linha era oficialmente aberta à exploração. Gritaram-se vivas, deram-se abraços; multidões acorreram para ver a negra E81, comandada pelo próprio Dinis da Mota, a partir da estação do Tua para subir todo o vale do rio até Mirandela. E era o progresso e o orgulho de todo um povo ali, engalanado na locomotiva, a sorrir para a posteridade um legado inolvidável. O povo pelo caminho também se juntou, acenando, e em Mirandela El-Rei D. Luís I recebeu a todos com um olhar régio de satisfação, rodeado das mais altas patentes do distrito. Baptizaram-se locomotivas, presidentes e dignitários falaram, e o povo tinha do que falar e do que se valer por várias gerações.
E assim ganhei o meu lugar no imaginário destas terras. Muitos anos depois, os garotos puxavam-me as mãos para lhes contar, no fim da malha ou da vindima, ou nas longas e escuras noites de invernia, as histórias da construção da linha. E eram os adultos a rir com as peripécias de um ou outro dia de confraternização, e os miúdos a arregalar os olhos de espanto quando me imaginavam a voar como um pássaro enquanto o desfiladeiro vomitava com raiva pedaços de pedra pelos ares.
Quanto à linha, bem... Anos depois, retomaram-se os trabalhos, e o comboio chegou finalmente a Bragança, em 1906, depois da maior ponte e maior túnel da linha serem construídos, e o comboio atingir a sua altitude máxima em todo o país, nos 850 metros de Rossas. Presidentes vieram, repúblicas e ditadores se foram, e o comboio seguiu o seu rumo, inexorável, pontual, ao ritmo dos finos relógios franceses, que a par dos apitos esfuziantes das locomotivas a vapor e das automotoras regiam um povo ao minuto, sem falhas. Cultivos cresceram, cereais embarcaram, tropas se foram, amores se tornaram possíveis, tudo graças ao pendular constante dos comboios pelas serras e vales por onde a Linha do Tua passa.

Mas veio o dia em que alguém, com impunidade e estultícia, ditou o encerramento dos 80Km de via-férrea que se construíram entre Mirandela e Bragança. Quantas voltas no túmulo terão dado nesse triste dia os valentes homens que ali passaram 2 anos da sua vida, a trabalhar com tanto esforço, a deixar uma tão grande obra para os filhos! Quantos perderam emprego, tantas memórias enxovalhadas...

E aqui estou eu, memória de um povo, debruçado sobre esta fraga. Ali em baixo, o Tua e a linha continuam os mesmos que eu conheci e moldei, faz agora 120 anos. Lá vai agora o comboio, são menos agora, mas seguem com a mesma resolução com que a E81 no dia em que subiu este caminho de Santiago nessa data imemorial. E há gente que por ela luta, que dela reconhecem o esforço e apoio na construção de uma região melhor, que por ela saiu à rua numa noite de roubo não temendo a cara carrancuda do Estado que lhe tirava quase 100 anos de comboio. Há gente que vive a
Linha do Tua, 120 anos depois. Que assim continuem!

Em memória dos ferroviários caídos no acidente de Castanheiro, a 12 de Fevereiro de 2007

CONDE, Daniel – Tua-Mirandela. 120 Anos de História, www.alinhadotua.com [em linha], CONDE, Daniel, MCLT, Setembro de 2007, [consult. 18 Fev. 2009] Disponível na Internet (http://www.alinhadotua.com/textos.htm).
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